O dia era 24 de junho de 2023, e o Paulista de Jundiaí parecia estar morto. O histórico campeão da Copa do Brasil de 2005 perdeu para o União Barbarense e foi rebaixado para a quinta e última divisão do Campeonato Paulista. Mas, definitivamente, aquele capítulo estava longe de ser o derradeiro de uma história forjada na resiliência.
O Galo da Japi se reergueu e nunca mais teve dias trágicos. Em 2024, veio o acesso à Série A4 e o título da Bezinha. Sete meses se passaram e o Tricolor subiu novamente. Desta vez, para a A3, a terceira divisão estadual.
O time de Jundiaí vai encarar na final o mesmo União Barbarense de dois anos atrás, mas em uma situação totalmente oposta. A taça pode ser a cereja do bolo de quem já faturou o principal objetivo de 2025.
Made in Jundiaí
As conquistas recentes do Paulista passaram pelas mãos de torcedores verdadeiros do clube. Não apenas as 8,9 mil pessoas que empurraram o time no jogo do acesso, o 3 a 0 sobre o Nacional-SP, nesse último sábado, no Jayme Cintra.
Após o fundo do poço e a quinta divisão do estado, o Galo da Japi contou com o protagonismo de dois torcedores de arquibancada e jundiaienses. O primeiro é Rodrigo Peterneli, membro de uma torcida organizada e que virou presidente na pior crise da história do clube.
Mesmo com as dívidas multimilionárias e rebaixamentos, o dirigente não fez loucuras financeiras e não deixou o barco afundar. Se cercou de boas influências e trouxe mais um nativo para o comando técnico do Tricolor: o jovem treinador Fausto Dias, que não tinha nenhuma experiência em um time profissional.
Nascido em Jundiaí e sempre pregando a simplicidade, Fausto subiu o Paulista duas vezes, em 2024 e 2025. Além dos dois acessos e do título da Bezinha tem um expressivo aproveitamento de 62,3% com 20 vitórias, 11 empates e apenas sete derrotas em 38 partidas. A chave do sucesso foi a simplicidade de alguém que poucos apostavam.
Imbatível, derretido e ressurgido
Não parecia haver time algum que pudesse vencer o Paulista no início da Série A4 deste ano. Nos seis primeiros jogos, foram seis vitórias (100% de aproveitamento) e absolutamente nenhum gol sofrido. O goleiro do Galo, Lucas Gomes, superou a marca de 1.100 minutos sem ser vazado e entrou até no top-20 mundial.
Mas, o time mudou do vinho para a água e começou a fase de derretimento. Nas 10 partidas seguintes, o Tricolor venceu uma, empatou seis e perdeu três. Em uma das derrotas, tomou 5 do Colorado Caieiras, em pleno Jayme Cintra.
No início do mata-mata, nas quartas de final, recebeu o Joseense no duelo de ida e perdia por 2 a 0 até os 15 minutos do segundo tempo. O Paulista reagiu e buscou o empate por 2 a 2. Com isso, só se classificaria se vencesse o confronto de volta, fora de casa.
Ganhou por 2 a 0 e ressurgiu de volta à sua primeira versão da Série A4. Na semifinal, fez 4 a 1 no agregado contra o Nacional-SP e conquistou o tão sonhado acesso. Na final, encara o União Barbarense, com o jogo de volta na casa do adversário, que tem a melhor campanha da competição.
SAF em formação
No final do ano passado, os sócios contribuintes do Paulista aprovaram por unanimidade a venda de 90% da futura SAF do clube à gestora Exa Capital, do empresário Pedro Mesquita. Os valores não foram divulgados, mas o que se sabe é que o Galo tem dívidas estimadas em R$ 50 milhões.
Mesquita foi o consultor que intermediou a compra da SAF do Cruzeiro para Ronaldo e depois auxiliou na venda das ações para o empresário Pedro Lourenço, atual dono do clube mineiro. Conforme anunciado, a criação da SAF e a consultoria esportiva do Paulista ficaram sob responsabilidade do ex-zagueiro Paulo André, com quem Mesquita trabalhou no Cruzeiro.
História do Paulista
Fundado em 1909, o Paulista é um dos clubes mais antigos de São Paulo, superando em idade até mesmo todos os quatro grandes do estado.
O clube passou a disputar competições profissionais somente na década de 1930 e chegou à elite estadual apenas em 1968, 11 anos após a inauguração do estádio onde manda seus jogos até hoje, o Jayme Cintra.
Entre as décadas de 1970 e 1990, o Galo figurou entre a primeira e terceira divisões estaduais, período em que viveu um verdadeiro jejum de títulos - com exceção feita a uma Copa São Paulo de Futebol Júnior, vencida em 1997. Apesar disso, serviu de casa para grandes nomes do futebol brasileiro como Casagrande e Toninho Cerezo.
A maré começaria a virar no fim do século XX e, pode-se dizer que o Paulista entrou no novo milênio com tudo, para o momento mais glorioso de sua centenária história. Campeão da Copa Paulista (à época chamada Copa Estado de São Paulo) em 1999, o Galo soube tirar proveito de uma parceria com a Parmalat, que mudou o nome do clube para Etti Jundiaí.
Foi em 2001 que o Galo conquistou de uma só vez a Série A2 do Paulista e a Série C do Campeonato Brasileiro. No ano seguinte, apesar do fim da parceria com a Parmalat, o clube voltou a se chamar Paulista.
Na elite estadual e na segunda divisão nacional, o Galo de Jundiaí foi vice-campeão Paulista em 2004, mas o auge ainda estaria reservado para os anos posteriores. O clube conquistou o título da Copa do Brasil em 2005 e, na temporada seguinte, disputou a Libertadores, chegando a vencer o River Plate.
Naquele mesmo ano, o Paulista ainda viu o acesso à elite nacional bater na trave ao terminar a Série B na quinta colocação. A partir de 2007, porém, a maré mudou e o Galo da Japi caiu para a Série C, para a D no ano seguinte e, desde 2009, nunca mais disputou qualquer divisão do Campeonato Brasileiro.
É bem verdade que depois disso o clube ainda conquistaria duas vezes a Copa Paulista (2010 e 2011), o que renderia duas participações na Copa do Brasil, mas em 2014, o clube caiu também no Paulistão e, nos anos seguintes, enfileirou uma série de rebaixamentos.
Desde 2021, o Paulista disputava a última divisão estadual. Até o ano passado, o último nível era o quarto, mas com a criação de uma quinta divisão, o Galo se viu novamente rebaixado, mas no nível mais baixo de sua história. Ao todo, desde 2007, foram nada menos que sete rebaixamentos.
O fundo do poço: dia do rebaixamento do Paulista para a quinta divisão de SP — Foto: Edivaldo Santos/Paulista FC
Títulos do Paulista
- Copa do Brasil - 2005
- Série C do Brasileiro - 2001
- Copa Paulista - 1999, 2010 e 2011
- 2ª divisão do Campeonato Paulista - 1919, 1921, 1968 e 2001
- 4ª divisão do Campeonato Paulista - 2019
- 5ª divisão do Campeonato Paulista - 2024